Ná Oliveira

Nutrição materno-infantil

Especialista em Nutrição Funcional aplicada à gestação e ao pós-parto

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Antes de gestar · acolhimento e ciência

Perdas gestacionais recorrentes: como preparar o corpo para a próxima gestação

Duas ou mais perdas merecem investigação orientada, e o tempo até a próxima tentativa pode ser usado para cuidar do casal. A nutrição é uma parte desse caminho, ao lado do seu obstetra, sem culpa e sem falsas promessas.

Mulher em ambiente sereno segurando uma ecografia, imagem conceitual de esperança após uma perda
Imagem ilustrativa.

Primeiro, o que importa saber

Não é raro, e não é culpa sua

A perda gestacional, também chamada de aborto espontâneo, é a complicação mais frequente da gravidez. Quando se repete, fala-se em perda gestacional recorrente, ou aborto de repetição. A perda não deve ser atribuída automaticamente à alimentação, ao estresse ou a uma escolha sua.

15%

das gestações reconhecidas

terminam em perda. É frequente e, na maioria das vezes, não depende do que a mulher fez.

1 a 5%

dos casais

vivem perdas repetidas. Por isso existe um caminho próprio de investigação.

2

perdas bastam

para iniciar a investigação, consecutivas ou não, segundo a ESHRE e a SPOMMF.

70%

dos casais com 2 perdas

têm uma gestação seguinte bem-sucedida, mesmo sem intervenção médica.

A investigação médica

O que o seu obstetra costuma avaliar

Não existe um exame único. A investigação depende da história de cada casal e, mesmo com estudo completo, às vezes não se encontra uma causa. Esta lista resume as diretrizes para você chegar à consulta mais preparada.

Modelo de DNA, exames laboratoriais e ecografia sobre a mesa, representando a investigação clínica
Ilustração anatômica estilizada do útero e ovários

Exames e tratamentos são definidos pelo seu médico. O meu papel é a nutrição, em diálogo com ele.

  1. I
    GenéticaAlterações cromossômicas do embrião pesam muito nas perdas precoces. Estudo do material da perda a partir da segunda perda; cariótipo do casal só em casos selecionados.
  2. II
    ÚteroEcografia 3D para avaliar a cavidade e anomalias uterinas.
  3. III
    TireoideTSH e T4 livre. Anticorpos anti-TPO quando indicado.
  4. IV
    MetabolismoGlicemia e hemoglobina glicada (HbA1c). Diabetes mal controlado aumenta o risco.
  5. V
    Anticorpos antifosfolípidesInvestigação da síndrome antifosfolípide: anticoagulante lúpico, anticardiolipina e anti-β2-glicoproteína I.
  6. VI
    Vitamina DSuplementação preventiva a considerar antes de engravidar.

Onde a nutrição entra

Preparar o terreno enquanto a investigação acontece

Nenhuma dieta garante uma gestação. A alimentação atua nos fatores que pesam no risco e que estão nas suas mãos, e prepara o corpo do casal para a próxima tentativa.

Mesa com alimentos variados: legumes, ovos, peixe, leguminosas e frutas para a preparação pré-concepção

Composição corporal

A obesidade é um fator de risco para perdas recorrentes. O foco é massa muscular e sensibilidade à insulina, sem dietas punitivas.

Glicemia

Controle glicêmico antes de engravidar e no primeiro trimestre, com metas combinadas com a equipe médica.

Reservas de nutrientes

Vitamina D, folato, B12, colina, ferro e iodo, avaliados pelos exames e pela alimentação. Suplemento só quando indicado. Vitaminas antes de engravidar.

Genética e intestino

Nutrigenômica e saúde intestinal ajudam a priorizar nutrientes e a entender a absorção. Não diagnosticam a causa da perda.

O casal, não só a mulher

Tabaco e álcool fora. No homem, peso, tabaco e exercício em excesso se associam a alterações nos espermatozoides. Veja fertilidade masculina.

Cuidado com o emocional

O luto acompanha muitas perdas. Acolho o casal e indico apoio psicológico quando faz sentido.

Com honestidade

O que não ajuda

Depois de uma perda, é comum receber muitas promessas. Estas não têm o apoio das diretrizes.

  • ×Multivitamínico “para segurar a gestação”. Sem evidência consistente de reduzir perdas.
  • ×Pesquisar trombofilia hereditária ou MTHFR sem indicação. Não é recomendado por rotina.
  • ×Dietas restritivas ou jejum para emagrecer rápido antes de tentar de novo.
  • ×Antioxidantes como tratamento do homem. Não são recomendados na prática clínica.
  • ×Imunoterapias sem indicação. Reservadas a estudos ou a doenças autoimunes específicas.

Acompanhamento

Como eu cuido do casal

Sem culpa e sem pressa. Um plano proporcional à sua história, em articulação com quem conduz a investigação.

Mulher preparando refeição saudável na cozinha
1

Leitura da história

Perdas anteriores, exames e a investigação do obstetra, lidos antes da consulta.

2

Plano do casal

Composição corporal, glicemia, reservas e rotina, com prioridades claras.

3

Até o primeiro trimestre

Acompanho a preparação, o positivo e as primeiras semanas, em diálogo com o médico.

Agendar consulta do casal

Perguntas frequentes

Dúvidas sobre perda gestacional recorrente

Depois de quantas perdas devo investigar?

A diretriz europeia (ESHRE, 2022) e a norma portuguesa (SPOMMF, 2022) admitem iniciar o estudo depois de duas perdas do mesmo casal, consecutivas ou não. Não é preciso esperar uma terceira perda para conversar com o seu obstetra.

A alimentação pode evitar uma nova perda?

Nenhuma dieta garante isso. A alimentação atua em fatores que pesam no risco, como peso, glicemia e reservas de nutrientes, e prepara o corpo enquanto a investigação médica procura as causas. Muitas perdas têm causas que a dieta não modifica.

Preciso fazer teste de MTHFR ou um painel genético extenso?

Não por rotina. Variantes comuns do MTHFR não explicam, sozinhas, as perdas e não são investigadas pelas diretrizes. Testes nutrigenômicos podem ajudar a priorizar nutrientes, mas não substituem a investigação clínica.

Quando posso tentar engravidar de novo?

Essa decisão é do seu obstetra, depois da investigação. Usar o tempo de espera para preparar o corpo do casal faz diferença na próxima tentativa.

O homem também precisa se preparar?

Sim. Peso, tabaco, álcool, sono e exercício em excesso influenciam a qualidade dos espermatozoides. O plano é do casal.

A vitamina D ajuda?

A norma da SPOMMF recomenda considerar a suplementação preventiva antes de engravidar em mulheres com perdas recorrentes, porque a deficiência é frequente e a suplementação é segura. A dose depende dos seus exames.

Atende fora do Brasil?

Sim. O atendimento é online, para casais no Brasil e em outros países de língua portuguesa.

NÁ

Escrito e revisado por Ná Oliveira, nutricionista materno-infantil (CRN-6 36003), especialista em Nutrição Funcional aplicada à gestação e ao pós-parto e em Gastroenterologia Funcional. Última revisão: outubro de 2026. Conheça a formação.

  • Referências.
  • Bender Atik R, Christiansen OB, Elson J, et al. ESHRE guideline: recurrent pregnancy loss: an update in 2022. Hum Reprod Open. 2023;2023(1):hoad002.
  • Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal (SPOMMF). Normas de Orientação Clínica: Perda Gestacional Recorrente. 2022.