Tentante · Fertilidade

Estou tentando engravidar há meses e não consigo. Quando devo me preocupar?

Resposta direta: a maior parte dos casais engravida nos primeiros seis meses, e a maioria dos restantes dentro de um ano. Três, quatro ou cinco meses a tentar é, estatisticamente, dentro do esperado. A linha que a medicina reprodutiva usa para investigar é doze meses abaixo dos 35 anos, e seis meses a partir dos 35. Isso não quer dizer para ficar parada à espera: quer dizer que há uma diferença entre demorar e ter um problema, e que esse tempo dá para ser usado.

Você olha o teste negativo outra vez. Faz a conta dos meses. Entra na internet e encontra fóruns cheios de mulheres a contar histórias, algumas tranquilizadoras e outras não.

Este texto é para te dar os números reais, e depois falar do que dá para fazer enquanto o tempo passa.

Os números que ninguém te deu

Uma revisão sistemática que reuniu oito estudos, com mais de dois mil trezentas mulheres a tentar engravidar, calculou a probabilidade acumulada de gravidez ao longo do tempo. Ao fim de seis meses, 66,3% estavam grávidas. Ao fim de doze meses, 81,3% (Fertility and Sterility).

A Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, na sua opinião de comité sobre otimização da fertilidade natural, descreve o mesmo padrão: a probabilidade de conceção é mais alta nos primeiros meses e vai diminuindo gradualmente, e cerca de 80% dos casais concebem nos primeiros seis meses (ASRM, 2022).

Repare no que estes números dizem, e no que não dizem.

A linha muda com a idade, e isso importa.
A ASRM recomenda que, a partir dos 35 anos, a consulta com especialista em reprodução seja considerada depois de seis meses sem sucesso, e não doze. O motivo é o declínio da fertilidade relacionado com a idade: esperar mais custa mais.

Se você tem mais de 35 e já tentou seis meses, não é cedo. É o momento.

Demorar não é o mesmo que ter um problema

Esta distinção é o coração do texto.

A infertilidade é definida como a falha em conseguir gravidez após doze meses ou mais de relações regulares sem contraceção. É uma definição operacional, construída para decidir quando investigar. Não é um diagnóstico que se aplica a quem está no mês sete.

E mesmo entre quem cruza essa linha, muitos engravidam depois. As taxas acumuladas continuam a subir no segundo ano.

O que já vale a pena olhar antes dos doze meses

Aqui é onde eu discordo da leitura mais comum. “Espere um ano e depois veja” trata o tempo de espera como tempo morto, e ele não é.

Há coisas que não dependem de diagnóstico de infertilidade e que fazem diferença seja qual for o desfecho.

A janela fértil

A janela fértil abrange o intervalo de seis dias que termina no dia da ovulação. Relações a cada um a dois dias nessa janela dão as taxas de gravidez mais altas, embora duas a três vezes por semana produzam resultados quase equivalentes (ASRM).

E há um dado que poupa preocupação a muita gente: posição, timing específico dentro do ato, ou ficar deitada depois, não têm impacto significativo. Isso é folclore.

O que acontece no corpo enquanto você tenta

Aqui está a parte que quase ninguém explica, e que é a razão de existir uma nutricionista nesta história muito antes de existir um diagnóstico.

Fertilidade não é um interruptor que liga ou desliga. É o resultado de vários sistemas a funcionar ao mesmo tempo. E alguns deles são território nutricional direto.

1. O intestino participa do seu ciclo hormonal. Literalmente.

Esta é a parte que costuma surpreender.

O estrogênio produzido pelos ovários, suprarrenais e tecido adiposo é metabolizado no fígado e transformado numa forma conjugada, biologicamente inativa. Essa forma é excretada pela bile para o intestino, para ser eliminada.

Só que no intestino existe um conjunto de bactérias que produzem uma enzima chamada beta-glicuronidase. Essa enzima faz o processo inverso: desconjuga o estrogênio e devolve-lhe atividade biológica. Parte é eliminada nas fezes e na urina; outra parte é reabsorvida de volta para a circulação e regressa ao fígado. Chama-se a isto reciclagem êntero-hepática do estrogênio.

Ao conjunto de genes bacterianos envolvidos neste processo dá-se o nome de estroboloma.

Quando a microbiota está equilibrada, esse sistema mantém o estrogênio em níveis fisiológicos. Quando há disbiose, a atividade dessa enzima altera-se, e com ela a quantidade de estrogênio que volta a circular (Gut Microbes, 2023).

Por que isto interessa a quem está tentando.
O seu ciclo depende de equilíbrio hormonal, e parte desse equilíbrio é regulada no intestino. Uma revisão sistemática de 2025 investigou precisamente o papel do estroboloma na endometriose e na infertilidade, e descreveu alterações da atividade da beta-glicuronidase associadas a essas condições (BMC Women’s Health, 2025).

A ciência aqui ainda está a construir-se, e eu não vou além do que ela mostra. Mas o mecanismo existe, está descrito, e é trabalhável.

2. Absorver não é o mesmo que ingerir

Esta é a segunda razão pela qual eu começo pelo intestino.

Você pode estar a tomar o suplemento certo, na dose certa, e mesmo assim não estar a repor nada. O ferro precisa de um ambiente adequado no intestino delgado para ser absorvido. O folato depende da integridade da mucosa. A vitamina B12 precisa de fator intrínseco e de um íleo terminal funcional.

Quando existe inflamação intestinal, supercrescimento bacteriano ou alteração de permeabilidade, esses processos ficam comprometidos. E a mulher toma, toma, toma, e a ferritina não sobe.

É por isso que eu não começo pela dose. Começo por perceber por que a dose anterior não funcionou.

3. O óvulo que vai ovular este mês começou a ser preparado há meses

O folículo que libertará o óvulo não se forma no ciclo em que ovula. Ele atravessa um processo de maturação que leva vários meses, durante os quais está exposto ao ambiente metabólico do corpo: glicemia, inflamação, estresse oxidativo, disponibilidade de nutrientes.

Isso muda a leitura do tempo. O que você faz hoje não afeta a ovulação deste mês; afeta as dos meses seguintes. E explica por que resultados nutricionais na fertilidade não são imediatos, nem deviam ser prometidos como tal.

4. Do lado dele, o relógio são noventa dias

A produção de espermatozoides, do início ao fim, leva cerca de três meses. Ou seja, o espermograma de hoje reflete o que ele viveu no trimestre anterior.

É por isso que qualquer intervenção do lado masculino precisa de pelo menos esse tempo para aparecer em exame. E é por isso que não faz sentido avaliar mudanças ao fim de três semanas.

5. As reservas que a gestação vai consumir

Uma gestação consome entre 1.000 e 1.200 mg de ferro. Subir ferritina leva meses, não semanas.

E há uma assimetria cruel neste ponto: quem engravida rápido, com reserva baixa, entra na gestação já em dívida. Escrevi sobre isso em detalhe aqui, incluindo o motivo pelo qual o cérebro fetal é afetado antes de qualquer anemia aparecer no hemograma.

6. O folato, e a janela que se fecha antes de você saber

O tubo neural fecha-se nas primeiras semanas de gestação, muitas vezes antes de a mulher saber que está grávida. Começar folato depois do positivo é começar tarde para essa finalidade específica.

E há mais: dois estudos de coorte prospetivos, com 9.559 mulheres a tentar engravidar sem tratamento de fertilidade, na Dinamarca e na América do Norte, encontraram associação positiva entre a ingestão alimentar de folato antes da conceção e a fecundabilidade, num padrão dose-resposta (Human Reproduction).

Repare que eu não disse que folato faz engravidar. Disse que existe associação documentada em coortes grandes. É diferente, e a diferença importa.

7. A glicemia, mesmo sem diabetes

Resistência à insulina afeta a ovulação, e não é preciso ter diagnóstico de diabetes para isso acontecer. É um dos mecanismos centrais na síndrome dos ovários policísticos, mas não se limita a ela.

É também aqui que se constrói a margem que a gestação vai exigir depois, quando a resistência à insulina aumenta fisiologicamente. Escrevi sobre essa continuidade aqui.

Somando os relógios.
Maturação folicular: meses. Ciclo espermático: noventa dias. Reposição de ferritina: meses. Reequilíbrio intestinal: meses.

Nenhum destes processos responde em semanas. É por isso que o tempo de tentativa não é tempo morto: é exatamente o tempo de que estes sistemas precisam.

O que a ASRM diz sobre hábitos

E ele?

Metade da conta é dele, e costuma ser metade esquecida.

A produção de espermatozoides leva cerca de três meses, o que significa que o que ele faz hoje aparece no espermograma daqui a um trimestre. É também por isso que os formatos de acompanhamento de noventa dias fazem sentido biológico.

Escrevi sobre a preparação do homem tentante aqui.

Uma coisa que eu não faço, e que quero dizer com clareza.
Eu não trato infertilidade, não investigo causas de infertilidade e não substituo consulta com ginecologista ou especialista em reprodução humana.

O que eu faço é o terreno: estado nutricional, reservas, intestino, composição corporal e controle metabólico. Isso vale por si, e vale ainda mais se houver tratamento pela frente, porque quem chega a um tratamento com o corpo preparado chega em melhores condições.

Dois relógios, e eles não são o mesmo

Existe uma confusão que custa tempo a muita mulher: achar que só há uma decisão a tomar, e que ela é “quando procurar o médico”.

São duas decisões diferentes, com calendários diferentes.

O relógio da investigação médica

Este é o que define quando se investiga se existe uma causa a tratar.

Estes prazos não são negociáveis, e eu não vou sugerir que você os adie. Existem causas de infertilidade em que o tempo conta, e adiar custa caro. Se você já passou da linha, procure. Investigar não é o mesmo que precisar de tratamento.

O relógio da preparação nutricional

Este é outro, e começa muito antes.

O momento certo para procurar uma nutricionista não é quando a investigação médica não encontra nada. É no mês um.

Volte aos números da secção anterior. A maturação folicular leva meses. O ciclo espermático leva noventa dias. Subir ferritina leva meses. Reequilibrar a microbiota leva meses.

Se você começar a trabalhar isso no mês doze, quando o ginecologista pedir os primeiros exames, os resultados só vão aparecer por volta do mês quinze. Se começar no mês um, eles já estão lá quando a investigação começar.

É por isso que eu insisto neste ponto.
Eu não trato infertilidade, e disse isso acima. Mas há uma parte do terreno que nem o ginecologista nem o especialista em reprodução vão trabalhar, porque não é a função deles: estado nutricional real, reservas de micronutrientes, absorção intestinal, equilíbrio do estroboloma, controle glicêmico e composição corporal.

Essa parte não depende de diagnóstico nenhum para começar. E não melhora sozinha enquanto se espera.

E se a investigação vier a acontecer

Aqui está o argumento que eu acho mais honesto de todos.

Se daqui a seis ou doze meses você vier mesmo a precisar de avaliação médica, ou até de tratamento de reprodução assistida, chegar lá com o corpo preparado não é indiferente. Deficiências corrigidas, intestino funcionando, glicemia estável e reservas construídas são condições melhores do que as que você tem hoje, seja qual for o caminho.

E se não vier a precisar, porque engravidou pelo caminho, você entra na gestação com as reservas que ela vai consumir. Que era, de qualquer forma, o objetivo.

Nos dois cenários, começar cedo ganha. É a única aposta que não tem lado mau.

O que eu diria se estivesse à sua frente

Que os números estão do seu lado mais do que a internet sugere. Que três, quatro ou cinco meses é dentro do esperado, e que sentir-se falhada por isso é uma crueldade que a estatística não justifica.

E que esses meses não precisam ser só de espera. Dá para chegar ao positivo, quando ele vier, com o corpo em melhores condições do que está hoje.

Preparar enquanto se tenta

Reservas, intestino, composição corporal e controle metabólico. O que dá para trabalhar sem depender de diagnóstico nenhum.

Preparação para engravidar Fertilidade dele Falar comigo

Perguntas frequentes

Quanto tempo tentando engravidar é normal?

Cerca de dois terços das mulheres engravidam nos primeiros seis meses e mais de 80% dentro de um ano. A linha usada para investigar é de doze meses abaixo dos 35 anos, e seis meses a partir dos 35.

Estou tentando há 6 meses e não consigo. Tenho um problema?

Abaixo dos 35 anos, seis meses ainda está dentro do esperado: cerca de um terço das mulheres ainda não engravidou nessa altura. A partir dos 35, seis meses é o momento de considerar avaliação com especialista.

Ficar deitada depois da relação ajuda?

Não. A posição, o momento específico e ficar deitada depois não têm impacto significativo sobre a fertilidade, segundo a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva. O que importa é a frequência de relações dentro da janela fértil.

Devo tomar alguma vitamina enquanto tento?

O folato é indispensável antes da conceção, porque protege o tubo neural numa janela que se fecha muito cedo. Outras suplementações dependem dos seus exames e não devem ser feitas por suposição. A avaliação individual é o caminho.

Nutricionista trata infertilidade?

Não. Investigação e tratamento de infertilidade são do ginecologista e do especialista em reprodução humana. O trabalho nutricional atua no terreno: estado nutricional, reservas, intestino e controle metabólico, e complementa o acompanhamento médico.

Ná Oliveira, nutricionista funcional e integrativa, CRN-6 36003, com pós-graduação em Nutrição Funcional Aplicada à Gestação e Pós-parto. Diploma validado pela FCNAUP da Universidade do Porto, mestranda em Bioquímica em Saúde no Politécnico do Porto.

Conteúdo educativo. Não substitui consulta médica. A investigação e o tratamento de infertilidade são da competência do médico ginecologista e do especialista em reprodução humana.
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