Gestação · Crescimento fetal

O percentil do meu bebê caiu entre um ultrassom e outro. Devo me preocupar?

Resposta direta: sim, pode ser importante, mesmo que o seu bebê continue dentro da faixa considerada normal. A avaliação mais informativa não é comparar o seu bebê com a média dos outros bebês. É comparar o seu bebê com ele mesmo, ao longo da gestação. E é por isso que uma queda de percentil entre dois exames merece ser mencionada ao seu obstetra, ainda que ninguém tenha usado a palavra “pequeno”.

Você saiu do ultrassom das 28 semanas com o bebê no percentil 75. Fez o das 32 e apareceu 40. Ninguém disse nada de anormal, porque 40 está confortavelmente dentro do esperado. Mas você reparou. E agora está com aquela dúvida que não sai da cabeça: isso é normal ou é sinal de alguma coisa?

Esta é uma das perguntas que mais me chegam, e uma das menos explicadas por aí.

Por que a curva sozinha engana

As curvas de crescimento comparam o seu bebê com uma população de referência. Elas respondem a uma pergunta de tamanho: onde é que ele está em relação aos outros?

O que elas não respondem é a pergunta de trajetória: ele está mantendo o próprio ritmo?

São perguntas diferentes, e a segunda é clinicamente mais informativa. Um bebê pode estar no percentil 8 desde o início, estável, e estar perfeitamente bem, apenas constitucionalmente menor. Outro pode estar no percentil 60 e ter perdido metade do caminho em quatro semanas, e esse merece atenção mesmo estando acima da média.

A frase que resume.
Um ponto isolado numa curva diz pouco. Uma linha entre vários pontos diz muito. Por isso a avaliação seriada é sempre mais informativa do que uma medida única, por melhor que essa medida pareça.

Isso não é opinião: está na definição internacional

Em 2016, um painel de especialistas internacionais construiu por consenso, através de um procedimento Delphi, a definição de restrição de crescimento fetal usada hoje em boa parte do mundo (Gordijn et al., Ultrasound Obstet Gynecol, 2016).

Nessa definição, os parâmetros são de dois tipos. Os solitários bastam sozinhos para o diagnóstico. Os contributivos só contam quando aparecem acompanhados de outra alteração.

E aqui está o ponto que interessa a este texto: na restrição de crescimento tardia, a partir das 32 semanas, o cruzamento de percentis por mais de dois quartis nas curvas de crescimento entra formalmente como parâmetro contributivo.

Traduzindo: a queda de trajetória não é uma preocupação de mãe ansiosa. É um critério reconhecido, escrito, usado por especialistas do mundo inteiro para identificar restrição.

O que mais entra nessa avaliação

Repare que o percentil 10, sozinho, não fecha nada. E que a queda de trajetória vale tanto quanto ele nessa conta.

Por que os autores baixaram o corte para o percentil 3

Este detalhe explica muita coisa sobre a confusão que existe em torno do assunto.

Os autores do consenso foram explícitos: usar apenas o percentil 10 tem dois problemas ao mesmo tempo. Ele sobrediagnostica fetos que são apenas constitucionalmente pequenos, gerando ansiedade e intervenção desnecessárias. E subdiagnostica restrição verdadeira em bebês que estão acima desse percentil, que é exatamente o cenário deste artigo.

Ou seja: o bebê que cai de 75 para 40 é precisamente o caso que a curva populacional deixa passar.

Nem toda queda é preocupante

É importante não sair daqui com medo novo. Há razões banais para um percentil variar entre exames.

Por isso a leitura correta não é “caiu, então tem problema”. É “caiu, então vale olhar com atenção, comparar com os exames anteriores e verificar o Doppler”.

O que fazer, na prática

O que a nutrição faz aqui, e o que não faz.
Se a causa for insuficiência placentária, comer mais não resolve: o obstáculo está no transporte de oxigênio e nutrientes, não na quantidade de comida. A nutrição não reverte um quadro placentário instalado.

O que ela faz é trabalhar o que ainda é modificável: identificar deficiências reais nos seus exames, corrigir o que estiver alterado, cuidar do estado nutricional materno e dos fatores que influenciam a função placentária. É menos do que muita gente promete, e é honesto.

Uma palavra sobre a ansiedade

Eu sei que o intervalo entre descobrir um número e conseguir falar com o médico é longo. E sei que a internet, nesse intervalo, é um lugar cruel.

Se serve de alguma coisa: a maior parte das quedas de percentil que eu vejo em consulta não terminam em diagnóstico de restrição. Terminam em mais um ultrassom, um Doppler normal, e um bebê que continua o caminho dele. Isso não torna a observação menos válida, torna a preocupação mais suportável.

Continuar a leitura

Se quer entender a diferença entre um bebê pequeno e um bebê restrito, escrevi sobre isso em detalhe.

Bebê PIG ou restrição de crescimento? Ver o pré-natal nutricional

Perguntas frequentes

O percentil do meu bebê caiu, mas continua acima de 10. Isso é restrição?

Não por si só. A queda de percentis é um parâmetro contributivo na definição internacional, o que significa que conta quando aparece acompanhada de outra alteração, como Doppler modificado. Sozinha, ela é um motivo para olhar com atenção, não um diagnóstico. Quem avalia é o obstetra.

Quanta queda é considerada relevante?

No consenso internacional, o critério é o cruzamento de mais de dois quartis nas curvas de crescimento. Na prática, é uma queda expressiva entre exames, e não uma variação pequena que pode ser apenas margem de erro da medição.

Pode ser só erro do ultrassom?

Pode. A estimativa de peso fetal tem margem de erro conhecida, e varia com o aparelho, com o profissional e com a posição do bebê. Por isso a comparação entre vários exames vale mais do que qualquer medida isolada.

Devo fazer outro ultrassom para conferir?

Essa decisão é do seu obstetra. Repetir por conta própria, com intervalo curto e em serviço diferente, costuma gerar mais dúvida do que resposta, porque introduz mais uma variável de medição.

Tem algo que eu possa comer para o bebê voltar a subir de percentil?

Não existe alimento que faça isso de forma direta, e quem prometer está indo além do que se sabe. O que a nutrição pode fazer é corrigir deficiências reais identificadas nos seus exames e cuidar dos fatores que influenciam a função placentária e o aporte de nutrientes.

Ná Oliveira, nutricionista funcional e integrativa, CRN-6 36003, com pós-graduação em Nutrição Funcional Aplicada à Gestação e Pós-parto. Diploma validado pela FCNAUP da Universidade do Porto, mestranda em Bioquímica em Saúde no Politécnico do Porto.

Conteúdo educativo. Não substitui consulta, diagnóstico ou acompanhamento obstétrico. A interpretação do ultrassom e do Doppler, o diagnóstico de restrição de crescimento e as decisões sobre vigilância são do médico assistente.
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